O EFEITO INSTAGRAM

Antes de seguir com os nossos textos sobre identidade, tradições e tempo, gostaríamos de te oferecer uma nova perspectiva sobre o ambiente em que todas essas decisões estão sendo tomadas. Nenhuma escolha acontece no vácuo. Você está planejando o seu casamento num momento em que uma das forças mais influentes do mundo está moldando ativamente o que você considera bonito, desejável e necessário.

Estamos falando do Instagram (e de outras redes sociais). E não queremos retratá-las neste texto como vilãs. Queremos analisar essas redes como um sistema que possui uma lógica própria que vai te influenciar de todas as formas possíveis se você não estiver atenta a isso.

A group of wedding guests dancing and celebrating together on an outdoor patio during a reception party.

O mecanismo das plataformas

Nenhuma rede social mostra o que é necessariamente verdadeiro. Elas são desenhadas para impulsionar o que gera mais engajamento, repercussão. E o que gera mais engajamento em casamentos são imagens que impressionam à primeira vista. As redes tendem a recompensar o espetáculo e ignorar o que não foi necessariamente planejado para impressionar.

O problema não é a existência dessas imagens aparentemente "perfeitas". O problema é que elas constroem, ao longo de meses de pesquisa, uma ideia genérica do que um casamento deve parecer. E essa ideia raramente tem qualquer relação com quem você é. Além disso, a mesma ideia pode acabar sendo empurrada para milhares de outras noivas por aí, convencidas de que estão fazendo algo original e identitário, mas no final das contas só estão abrindo mão da própria identidade para reproduzir tendências temporárias.

A Heineken fez uma pesquisa recentemente relacionada com essa ideia, intitulada "Reset da mesmice". Você pode ler um pouco mais sobre essa pesquisa no site da Forbes clicando aqui.

Black and white outdoor wedding ceremony with bride in veil walking toward guests gathered on lush garden lawn.

Decisões tomadas para uma tela


Existe uma pergunta que raramente é feita durante o planejamento de um casamento, mas que deveria ser feita sobre cada elemento incluído no dia: estou escolhendo isso para ser vivenciado ou para ser fotografado? A diferença parece pequena, mas na prática ela determina se você vai estar presente no seu próprio casamento ou se vai passar o dia sendo gerenciada e gerenciando a produção de conteúdo de um evento que deveria ser uma celebração em primeiro lugar.

Momentos organizados para a foto. Sequências do dia pensadas em função do vídeo. Comportamentos fingidos para ficar legal no Instagram. Cada uma dessas decisões, isoladamente, parecem razoáveis. Acumuladas, elas transformam uma celebração entre amigos e família num evento de mentirinha para fazer fotos.

Cada vez mais noivas buscam espelhar seus casamentos em eventos promovidos por influencers, em que a noiva faz tudo para ser a nova sensação temporária no Instagram e todos os fornecedores buscam "tirar uma casquinha" para criar material publicitário para suas marcas. Nós já fotografamos casamentos assim, e honestamente, é exaustivo para o casal e exaustivo para todos os que estão trabalhando para o evento funcionar. No final das contas um evento assim é um casamento ou é uma campanha publicitária?


Criação de conteúdo NAS CERIMÔNIAS


Você mais do que ninguém sabe o quanto é caro organizar uma festa de casamento, não sabe? Acredite, o orçamento total médio para casamentos realizados aqui em Campos do Jordão gira em torno de R$750.000,00. Isso já deve te dar uma noção de como essa indústria pode ser lucrativa.

Meu ponto é: todo casamento é uma nova oportunidade para os fornecedores envolvidos criarem conteúdo sobre os serviços que prestam, na esperança de aprimorarem suas apresentações e assinar novos contratos. A decoradora, o assessor, a banda, o DJ, a maquiadora, o fotógrafo; todos esses profissionais esperam poder usar a imagem do seu casamento para demonstrar o quão bem eles realizam seus trabalhos. E nada mais justo. Você muito provavelmente escolheu seus fornecedores com base em recomendações e apresentações muito bem apresentadas, com boas imagens.

O problema começa quando criar conteúdo se torna mais importante do que oferecer uma boa experiência para o casal de noivos. Felizmente são exceções, mas nós já tivemos dificuldades para fotografar cerimônias em que haviam fotógrafos (além de nós dois) e videomakers de maquiadores, decoradores, assessores, espaços de casamento; dezenas de câmeras tumultuando um altar em que deveriam estar presentes somente noivos e celebrante. A impressão que dá é que, para essas pessoas, é mais importante vender do que executar.

Nós, como fotógrafos de casamento, entendemos a necessidade de portfolio para demonstração de competência na competitiva indústria de casamentos. E estamos sempre dispostos a compartilhar as fotos que fazemos com outros profissionais para que eles também tenham imagens de qualidade para suas apresentações. O que não concordamos é quando sua cerimônia e suas fotografias correm o risco de serem prejudicadas pela criação de conteúdo indiscriminada durante momentos solenes.

Sempre haverão momentos do dia em que é apropriado criar conteúdo sobre os próprios serviços, mas a celebração de sua cerimônia não é um desses momentos. Para sanar esse problema, buscamos sempre nos comunicar de forma muito transparente com o profissional responsável pela organização do seu casamento, solicitando que restrinja a presença de pessoas no altar que não sejam relacionadas com a cerimônia; e também com cada fornecedor individualmente, nos colocando à disposição para a partilha das fotos caso você nos autorize a fazê-lo.

Woman in white lace robe sitting elegantly, holding a small clutch purse in a softly lit room.

Como não cair nessa armadilha


A questão não é abandonar suas referências visuais. A solução não é proibir que seus fornecedores criem conteúdo de marca no seu casamento. A ideia é saber que tipo de casamento você quer vivenciar: uma celebração ou uma produção de conteúdo.

Existe uma diferença entre usar as redes sociais para encontrar linguagens estéticas que ressoam com a sua identidade e usá-las para construir uma versão do seu casamento que vai performar bem numa plataforma de algoritmos. A primeira é uma ferramenta, e provavelmente foi assim que você encontrou o nosso trabalho. A segunda é uma armadilha que pode fazer você viver um dos dias mais memoráveis da sua vida em função de um hype temporário. Nós fotografamos casamentos toda semana, e acredite, o hype não dura muito. Depois de uma semana, um novo casamento vai surgir implorando por atenção nos feeds e stories. Simplesmente não vale a pena entrar nesse jogo. O que importa é a memória a longo prazo. Suas fotos serão ainda mais valiosas daqui alguns anos.

Quando você olha para uma imagem e sente algo que não seja uma simples vontade de replicar, mas reconhece que algo ali se alinha com a sua identidade e trajetória de vida, essa é uma referência que vale guardar. Essa referência inspira ideias alinhadas com a sua identidade para o dia do seu casamento. Todo o resto é ruído com boa iluminação (e provavelmente manipulado por algum influencer usando inteligência artificial).

Black and white photo of a bride in a flowing gown raising a bouquet as guests celebrate outside a Tudor-style venue.
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Que bom que você leu até aqui. Eu sei, a conversa é delicada, mas nos preocupamos com a forma como você vai vivenciar o seu casamento. Agora que demos o primeiro passo, podemos falar sobre quem você é quando nenhum algoritmo está te influenciando. Nos vemos no próximo texto.