Falar sobre tempo é sempre um assunto muito sensível. Não somente sobre o tempo alocado para os eventos do seu dia de casamento, mas também sobre essa força misteriosa que rege nossas vidas e dá significado aos verbos nascer e morrer, iniciar e acabar. Hoje queremos conversar com você sobre o controle do tempo no dia do seu casamento (que chamamos popularmente de cronograma), mas também sobre os efeitos que esse pilar fundamental da natureza tem sobre as nossas memórias e sobre nossas vidas.
Cronograma vs. presença
O cronograma, que é a espinha dorsal do seu dia de casamento, deve servir à vida. E não o contrário. Se tudo que você fizer nesse dia for para cumprir o cronograma, você terá se casado e celebrado ou terá simplesmente cumprido uma tarefa? Tentar controlar o seu dia minuto a minuto pode ser um exercício de frustração e uma fonte de estresse desnecessário. Queremos te propôr uma forma diferente de encarar o cronograma do seu casamento.
Na Grécia antiga, havia duas palavras para definir conceitos diferentes de tempo: Chronos (o tempo do relógio que se mede, quantitativo) e Kairós (o momento propriamente vivido, qualitativo). Entende a diferença fundamental aqui? Quantidade de tempo é diferente de qualidade de tempo. Ficar horas num lugar em que você não quer estar resulta numa abundância de tempo de baixíssima qualidade. Enquanto poucos minutos de êxtase com quem você adora resulta numa enorme qualidade de tempo concentrada em uma dose homeopática de minutos. Kairós.
Um casamento planejado levando em consideração apenas o relógio é um evento passageiro. Um casamento vivido com presença de corpo, alma e consciência é uma marca permanente na sua trajetória de vida. Por isso é importante preencher o seu cronograma (Chronos) com pessoas, lugares e atividades que fazem sentido para a sua alma, e não só para o evento. Lembre-se disso: você planta saudade onde coloca seu tempo e sua atenção.
COMO DESPERDIÇAR O SEU TEMPO
Lá na nossa primeira pílula, O Despertar da Identidade, nós te sugerimos se perguntar: "quem sou eu, e por que eu estou me casando, em primeiro lugar?" Esperamos do fundo do nosso coração que você tenha encontrado uma resposta sincera para essa pergunta. É ela quem vai definir a qualidade do tempo que você vai viver nesse dia.
Para a grande maioria dos casais, o maior inimigo do tempo de qualidade, na nossa humilde opinião, é a sensação de que vocês estão ali para serem vistos, em vez de estarem ali para coexistir com seus convidados.
Coexistir.
Co- (prefixo): "junto", "em companhia de".
Sistere (verbo em latim): "ficar de pé", "firmar-se".
Existir (ex-sistere): literalmente "emergir", "aparecer".
Coexistir (co-,ex-,sistere): "firmar-se na realidade junto com o outro".
Não é só estar lá fisicamente. É ocupar e compartilhar com o próximo o mesmo tempo e espaço, intencional e atentamente. É habitar. Esse é um entendimento que, se me permite o desabafo, está cada dia mais raro numa humanidade que se permite distrair e estar em todo lugar a todo tempo. Independente do que você queira fazer e com quem você queira estar no dia do seu casamento, a melhor forma de desperdiçar o seu tempo é estar com a cabeça em outro lugar, agindo como personagens de uma história que não é a de vocês.
Checklists e perfeição
Burocratização do afeto. É assim que definimos checklists intermináveis em casamentos. Calma, nós entendemos a necessidade de uma boa organização tão bem quanto os melhores planejadores de casamentos. Não sugiro que você tenha um cronograma "a Deus-dará". Mas, convenhamos, uma lista de "tem que ter" cheia de protocolos generalizados e ritos sem significado pessoal só consome as suas preciosas horas de vida num evento que deveria ser uma tatuagem emocional que transborda identidade, que cria momentos históricos na sua vida e que te prepara para uma caminhada a dois com muito mais segurança sobre o que vocês querem e sobre quem vocês realmente são. É uma oportunidade especial demais para se desperdiçar repetindo o roteiro de cerimônias alheias.
E sobre perfeição. Ah... a perfeição. Para falar dela, eu vou economizar parágrafos e te deixar com duas simples perguntas: mais vale uma foto perfeita que te custou incômodo e tensão, ou um gesto significativo que gerou uma foto imperfeita, mas sincera? Uma foto para ter 15 minutos de atenção no Instagram ou um portal no tempo para um momento em que você adorou estar viva?
Eu sei o que eu preferiria.
Por fim, a consciência da finitude
Se você realmente leu todas as reflexões que escrevemos e está lendo essa linha agora, você merece a minha sinceridade e a minha humanidade: eu trabalho com casamentos, mas a indústria de casamentos me cansa, porque vende tudo como mágico, eterno, perfeito, infinito. O nome disso é publicidade superficial.
Depois que a última música do seu casamento tocar, restará o fato de que a vida é, simplesmente, imperfeita. E é melhor que seja assim. Casamentos não são mágicos. Eles podem ser intensos, verdadeiros, íntimos. Sim. Mas eles são eventos humanos e portanto deveriam ser aceitos como imperfeitos, exatamente como nós. É sobre todos aqueles tracinhos (físicos e psicológicos) que nos tornam indivíduos, seres individuais. Finitos.
Nós estamos vivos, porra! Já temos Kairós, tudo de mais valioso, não precisamos ser perfeitos. Quem foi que te disse que você precisa ser perfeita? Nós, e todas as pessoas que te amam, esperamos que você seja humana, em um mar de gente desconhecida e irrelevante esperando que você seja um manequim.
Nós desejamos do fundo do nosso coração que você viva o dia do seu casamento (e todos os grandes dias na sua vida) de forma integral e intencional. Afinal, a vida não é um palco! Te convidamos a se despreocupar, soltar o controle e confiar. Esteja presente. Se você não souber como fazer isso, lembre-se: presente é tudo aquilo que está na frente dos nossos olhos, ao alcance das nossas mãos. Se você pode ver, sentir e tocar, está presente. E o maior presente que você pode se dar são momentos que desafiarão a finitude da vida. Esses momentos se transformarão em fotografia.


