Todos nós assumimos conhecer a nós mesmos muito bem. Se eu te perguntar quais são os seus gostos, você provavelmente terá na ponta da língua as séries que você está assistindo agora, as marcas das roupas que você gosta de usar ou o destino da sua última viagem. E essas coisas contariam uma parte da história de quem você é, mas não a história inteira. "Como assim? Que história besta, eu me conheço muito bem".

É difícil definir quem você realmente é porque não basta ficar no campo das superficialidades. Diferentes identidades e personalidades podem adorar assistir a mesma série que você, usar as mesmas roupas e ir aos mesmos lugares. Isso não diz muito sobre quem você é. É preciso ir além. Assim como para fazer uma amizade significativa, para conhecer a nós mesmos de forma profunda é preciso um ingrediente menosprezado, mas crucial. Vulnerabilidade. É necessário baixar a guarda e abrir as portas e janelas do seu ser para ser possível olhar para dentro.

E essa é uma tarefa ainda mais difícil de ser executada quando nos rodeamos de ideais perfeccionistas e narcisistas nas redes sociais. O mundo moderno com sua avalanche de informações não torna a tarefa mais acessível, nem mais fácil. É muito mais prático adquirir uma identidade de prateleira, que já tá ali prontinha para ser adotada e reproduzida, do que explorar nosso interior, nos fazer perguntas difíceis e encontrar respostas esclarecedoras que o mundo não nos daria. E, naturalmente, não é obrigação do mundo te dizer quem você é. Essa é uma responsabilidade única e exclusivamente sua.

Se você não souber por onde começar, eu te ajudo.

A series of black and white candid photographs showing someone in various poses near windows and interior settings.

MEIOS E FINS, MÉTODOS E FINALIDADES

Assim como para ter um diagnóstico físico você precisa olhar para o seu corpo, avaliar texturas, formas, cores e outras características, para ter um diagnóstico identitário você precisa "olhar" para dentro da sua mente. E como ninguém mais tem acesso a esse mecanismo fantástico, só você pode fazer isso. Como? Da mesma forma que todo ser humano na história iniciou um processo de análise e descobrimento: fazendo perguntas, encontrando respostas e analisando o seu conteúdo.

Vamos começar com algo simples: "com o que eu me identifico?"

Me lembro claramente de cruzar com o resultado do trabalho de um colega fotógrafo em que um casal se vestiu de ciclista e de bailarina para fazer uma sessão de fotos que tivesse ligação com suas identidades e personalidades. O que eu estou prestes a escrever tem potencial para ser mal interpretado, mas é necessário para o meu posicionamento. Eu senti um misto de chateação com vergonha alheia. Vergonha alheia porque aquilo era obviamente desconfortável de se olhar e reduzia o casal a um mero personagem caricato. A estética óbvia é excessiva, passa do ponto. Querer controlar o resultado da foto se tornou um obstáculo para a identidade. E chateação porque me deparei com uma clara oportunidade perdida de aprofundar a identidade dessas pessoas e fazer um trabalho muito mais significativo e, consequentemente, mais bonito e agradável aos olhos. "Ai, Matheus, mas você fica aí julgando as pessoas. Deixa elas serem felizes!" Eu realmente entendo como isso pode parecer um julgamento pretensioso da minha parte. Eu também me faço essas mesmas perguntas. "Será que eu não estou exagerando nessa minha análise?"

Meu ponto com esse último parágrafo e essa primeira pergunta é: você não é só o que você escolhe fazer. Sua identidade está muito mais ligada ao porquê você faz o que você faz. Todo ciclista busca liberdade, condicionamento físico e (os mais competitivos) disciplina nos treinamentos. Percebeu a diferença? Um ciclista não gosta de andar de bicicleta. Andar de bicicleta é um meio para um fim: liberdade, desempenho e disciplina. Uma bailarina é apaixonada pela dança (o método) porque proporciona expressão, beleza e disciplina (a finalidade). Não é sobre os objetos, é sobre o que eles significam.

Com isso em mente, procure a resposta para a sua primeira pergunta. "Com o que eu me identifico? E por quê?" A resposta mais refinada deve te revelar os seus valores. Evite dar respostas fáceis: "Ah, eu gosto porque é legal. Porque me faz bem". Você tem capacidade de ir mais fundo, e sinceramente, só assim você vai se descobrir.


Soft focus floral arrangement with coral and white flowers reflects in mirror at wedding celebration.

Como isso afeta o seu casamento


Quando você descobre os valores que determinam suas preferências, é natural questionar escolhas passadas. E, por outro lado, um horizonte de novas escolhas se apresenta. Dessa vez escolhas mais alinhadas com as suas respostas. Agora emergiu em sua consciência uma parte mais profunda de quem você é. Então suponhamos que uma de suas preferências para o seu casamento seja música eletrônica. E suponhamos que você tenha descoberto que a música eletrônica te proporciona bem-estar porque está ligada às suas necessidades de expressão, movimento e uma certa melancolia. Com essas características fundamentais esclarecidas você consegue definir um norte para todas as outras escolhas.

Nós ainda estamos falando sobre fotografia de casamento? Sim. Com esse novo truque na manga você tem a possibilidade de fazer escolhas intencionais, que vão refletir a sua identidade real e te permitir viver intensamente um evento criado por vocês e para vocês. Seu vestido, seu terno, suas flores, suas músicas, sua fotografia, sua forma de interagir com as pessoas; tendo internalizado os seus valores, todas essas escolhas se tornarão mais fáceis, naturais, e conversarão umas com as outras. A harmonia entre os elementos do seu casamento se tornará inevitável.


A expectativa dos amigos e da família


Aqui é importante falar de amor ágape. Uma festa de casamento é, naturalmente, um evento que transborda expectativas de todos os lados. E a esmagadora maioria dessas expectativas está direcionada aos noivos. Como vocês estarão vestidos? Como vocês vão reagir à celebração? Como vão reagir aos votos um do outro? Como vai ser a festa que vocês prepararam? E a comida que vocês escolheram? Tudo. São expectativas que envolvem investimentos financeiros e emocionais massivos.

E eu não falo isso para te preocupar ainda mais. Meu ponto é que seria humanamente impossível e destrutivo tentar controlar e atender todas essas expectativas simultaneamente. Eu entendo que muita gente te ajudou a chegar até aqui. Provavelmente tem algumas pessoas te ajudando a pagar por esse evento caríssimo. Mas quem te ama (mesmo que de formas estranhamente tortas), no final das contas, só quer te ver feliz.

O amor ágape de seus convidados é uma escolha deliberada de buscar o seu bem-estar sem esperar nada em troca. É altruísta. E é digno de celebração. Portanto a forma mais saudável de tentar atender a essas expectativas todas é simplesmente relaxar, ser fiel à sua identidade, seus valores, e se permitir existir sem controle. Ao se permitir, você libera seus convidados para fazerem o mesmo. E de quebra eu não encontro o sorriso posado para a tia, mas eu flagro esse amor. O olhar orgulhoso de quem te vê sendo, finalmente, você mesma.


Black and white photo of an energetic dance party crowd with raised arms celebrating at a wedding reception.

Por fim, a fotografia


Eu te avisei lá no índice. Você contratou dois fotógrafos e recebeu no pacote curadores existenciais. Nós não estamos aqui para fazer um trabalho raso. Toda essa reflexão é a forma que encontramos de explicar que uma memória é tão valiosa quanto o que está por trás das suas escolhas. Lembra do ciclista e da bailarina? É a mesma coisa. Você não vai receber somente fotografias (o que). O que estamos construindo juntos, começando por esse texto, é uma recordação das suas motivações (o porquê).

Se sua motivação é agradar aos outros, a memória perde valor conforme o tempo passa, porque o conceito de agradar muda muito rapidamente. É ancorar o valor do seu tempo, e o seu próprio valor, nas preferências passageiras de outras pessoas. Se sua motivação é aproveitar o seu tempo limitado nesse planeta, a memória ganha valor com o tempo, porque você passa a olhar para aquele momento como um lugar para onde você adoraria voltar. Um lugar para se reencontrar consigo mesma num momento de enorme alegria e te lembrar de que é maravilhoso conhecer e habitar a própria identidade.

Black and white photo of performers on stage during an energetic rock concert with dramatic lighting and crowd interaction.
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Agora que provocamos a consciência sobre quem vocês são, precisamos falar sobre como proteger essa essência na prática. Na próxima pílula, "A vida antes do protocolo", deixaremos a filosofia de lado por um momento para tratar da arquitetura do dia. Vamos conversar sobre como decisões objetivas são as ferramentas que garantem o tempo e a calma necessários para que tudo o que discutimos aqui realmente aconteça. Que bom que você veio até aqui, nos vemos na próxima.