21 de janeiro de 2026

Escrito por Matheus Muniz


Antes de mais nada, eu gostaria de te dizer que você pode explorar essa ideia comigo de duas formas diferentes: assistindo o vídeo anexado em que eu e Clara discutimos o assunto a dois, ou lendo o texto abaixo do vídeo. O vídeo é mais elaborado, enquanto o texto transmite a ideia mais diretamente. Agora, ao que importa.


Que a maneira de celebrar um casamento em 2026 é muito diferente de como se celebrava em 2006 ou em 1996 não é novidade para ninguém. Muita coisa mudou na forma como nós, enquanto sociedade, vivemos, interpretamos a vida e compartilhamos momentos importantes com nossos amigos e familiares. Presencial ou digitalmente.

Nós, Clara e Matheus, gostamos de estabelecer um ponto de virada na cultura da celebração de casamentos em meados de 2015, com Facebook e Instagram iniciando suas trajetórias absolutamente estratosféricas e mudando a maneira como as pessoas produzem eventos, consomem recordações e atribuem o próprio valor como ser humano. Alerta de spoiler: a coisa tomou um rumo performático para atender os padrões digitais e sociais das redes, que moldam nossa percepção do mundo e de nós mesmos.

Mas, vamos devagar.

POR QUE DECIDIMOS TOCAR EM UM ASSUNTO TÃO SENSÍVEL, AFINAL?

Nós começamos a trabalhar com casamentos em 2016, quando ainda fazíamos vídeos de casamento. Era uma novidade encantadora produzir de forma criativa, com composições planejadas, movimentos de câmera e gravações de áudio de qualidade que permitiam que os casais tivessem um vídeo de seus casamentos que se parecesse com uma cena de uma novela ou de um filme. Ficou cada vez mais fácil criar, para pessoas comuns, cenas que nós só víamos na TV ou no cinema. E desde aquele tempo nós já percebíamos um movimento que gerava um leve incômodo: a exageração de determinados aspectos do dia do casamento com o puro e simples objetivo de tornar o vídeo mais interessante do que a realidade estava, de fato, sendo. Até aqui, nada de novo. É a magia do cinema: transformar algo trivial em espetacular.

Avançando para 2026, essa magia do cinema tomou uma proporção tão grande que noivas que já se casaram, noivas que ainda vão se casar, fotógrafos, videomakers e assessores de casamento começaram a se perguntar: "será que os casamentos modernos estão encenados demais?"

Afinal, a impressão que todas essas pessoas têm é a de que o casamento tem se tornado um palco para criação de conteúdo e um desempenho performático que já não deixa espaço para a espontaneidade genuína, para um momento de celebração entre duas famílias do mundo real. O propósito do evento se deslocou da intenção para a encenação. A imagem agora fala mais alto. Você percebeu isso também?


DEFININDO ENCENAÇÃO

Após constatar que 89% das pessoas que acompanham nosso trabalho consideram que o casamento moderno está, sim, se tornando excessivamente encenado, nós decidimos esclarecer um ponto crucial na interpretação dessa dinâmica social: o que é essa tal de encenação? Afinal, se cada pessoa tem um jeito de ser, uma personalidade própria, quem somos nós para julgar se o que está acontecendo é encenado para a foto e para o vídeo, ou se é simplesmente o jeito de ser daquela pessoa?


Encenação é todo comportamento que não esteja alinhado com a personalidade da pessoa fotografada.


Um ator encena porque precisa expressar as intenções, sentimentos e personalidade de seus personagens. Agora, por que uma noiva encena? Que personagem a noiva "precisa" assumir no dia do seu casamento que justifiquem comportamentos que não estejam alinhados com a própria personalidade?

Convidados aproveitam a festa de casamento em meio à luzes mágicas.

PORQUE NÓS CONSIDERAMOS ISSO UM PROBLEMA


Nós temos presenciado casais que se sentem pressionados a atravessar diversas formalidades e protocolos no dia de seus casamentos que despertam sentimentos de incômodo, estresse e, em casos não tão raros, episódios de ansiedade. E não confunda esses sentimentos com a natural excitação e tensão de estar se casando. É uma pressão extra.

Organizar e executar um casamento já é, intrinsecamente, uma atividade que gera tensão e estresses acumulados. Adicione a pressão de acompanhar tendências estéticas e adequar comportamentos para atender a essas tendências e você tem um casamento moderno, otimizado para o Instagram, mas que pode ter um custo emocional alto.


Dois fatores que colaboram para o aumento dessa pressão


Primeiro fator: a intenção de alguns fotógrafos de conduzir o casamento para atender as próprias expectativas e se tornar mais um exemplo de consistência em seu portfólio. Segundo fator: a insegurança por parte dos próprios noivos com relação à própria identidade, dando espaço para que outras pessoas imponham suas visões do que é uma noiva "perfeita" e um casamento "perfeito".

Todo fotógrafo de casamento precisa demonstrar que domina consistentemente um estilo para agradar um mercado cada vez mais exigente. Esse não é o problema. Acontece comigo e com a Clara também. O problema começa quando nada do que compõe a identidade do casal é levado em consideração na hora de criar as memórias do dia do casamento.

Do nosso ponto de vista, pedir para que uma noiva tímida se torne uma noiva cheia de forma e atitude porque eu preciso que meu portfólio seja consistente é um desserviço para essa noiva que prefere lembrar de quem ela realmente é. E reafirmar isso diante de tantos profissionais exige uma segurança muito grande por parte dos noivos de entender que ser tímido e não ser uma noiva de capa de revista também é absolutamente aceitável.

Noiva exibe suas meias coloridas em um look não convencional.

UMA SUGESTÃO EFICIENTE


Você já se perguntou o que você faria no dia do seu casamento se não fosse contratar um fotógrafo ou fazer um vídeo desse dia? Tente imaginar como seria se casar sem a possibilidade de fazer fotos ou vídeos. Sem celulares, sem câmeras profissionais. O que você faria? Você ainda se casaria? Como você se comportaria? O que você vestiria? Como você dançaria? Você dançaria? Eu entendo que você não pretende fazer isso. Ninguém pretende. Todos queremos nos lembrar de dias felizes e importantes. É por isso que a fotografia existe, em primeiro lugar.

Entretanto, praticar imaginar as suas intenções e comportamentos sem o peso de precisar performar diante de uma câmera te abre a possibilidade de refletir se tudo o que você pretende contratar e planejar para o dia do seu casamento é porque aquilo realmente ressoa com você e se alinha com a sua identidade, ou se essa escolha está sendo feita só para a foto e o vídeo ficarem bons.


Entendendo quem você é


Nossa intenção não é criticar noivas que escolheram uma estética ou um comportamento específico para o próprio casamento. Se você é uma noiva que quer que o seu casamento seja digno de capa de revista, excelente! Você sabe disso, tem segurança de que sua atitude e sua identidade devem ser refletidas nas fotos por meio de poses performativas e olhares penetrantes. Ótimo. Isso também é lindo!

E se você é uma noiva mais tímida, reservada e que simplesmente quer se casar com seu melhor amigo e se divertir com a sua família e seus convidados sem as obrigações estéticas e comportamentais de um casamento editorial, excelente também! O ponto fundamental dessa conversa é: você sabe o que você quer? Se sim, comunique aos profissionais de imagem do seu casamento e deixe muito claro que te forçar a fazer algo que você não quer é uma linha que ninguém deve cruzar. Se você ainda não sabe, procure saber antes que alguém decida por você.


Sua identidade vai muito além de uma foto e um vídeo


No final das contas, essa é uma conversa sobre identidade. Uma pessoa é pressionada a encenar em seu casamento por um motivo: alguém em algum momento a convenceu de que ser quem ela é não é o suficiente. Na maioria das vezes isso é reflexo da velha exigência social de que uma mulher precisa ser sempre mais, sempre perfeita. Ainda mais no dia do seu casamento.

Ao se deparar com pessoas supostamente mais bonitas, mais bem sucedidas e com casamentos mais espetaculares que o nosso, é normal que o primeiro instinto seja querer amplificar nossa própria imagem por meio de fotos e vídeos espetaculares, mesmo que nada daquilo tenha a ver com quem somos. É instintivo: queremos ser queridos. E é normal querer que as pessoas vejam nas fotos e nos vídeos uma versão idealizada de quem eu sou. É natural, mas não é saudável. É preciso ter a certeza de que as pessoas que estarão no seu casamento não precisam de uma versão idealizada sua. Elas querem te ver por inteiro, com as falhas e qualidades que tornam você quem você é.

Os convidados do casamento formam um túnel com os braços erguidos enquanto os recém-casados ​​passam correndo por ele durante uma celebração

Nossa preocupação é que encenar excessivamente, num longo prazo, possa transformar os casamentos futuros em eventos que sejam muito mais voltados à exibição de provas sociais do que de fato a celebração entre famílias e a criação de memórias significativas, que façam sentido e que estejam alinhadas com as personalidades das pessoas presentes.

Nós realmente acreditamos que, mais do que curtidas e compartilhamentos numa rede social, você merece recordações sinceras. Recordações que façam você se lembrar de como foi bom ter a coragem de ser você mesma.