Se você já assistiu ao filme "A Vida Secreta de Walter Mitty" você deve se lembrar de uma das frases mais marcantes do filme: "As coisas realmente belas não clamam por atenção". Essa reflexão do fotógrafo fictício Sean O'Connell nos convida a olhar para o belo de uma forma mais profunda e menos óbvia.

Casal se olha por trás de um buquê de flores em Campos do Jordão © Clara e Matheus Fotógrafos de Casamentos

O que define se algo é belo ou não?


A beleza, a natureza do que é belo, pode ser definida como aquilo que desperta admiração, encantamento ou prazer aos nossos sentidos e nossa alma. Frequentemente, associamos beleza a estímulos visuais agradáveis, como uma roupa bem desenhada, um rosto harmônico ou cores em perfeita combinação. Contudo, a beleza pode se revelar como consequência de gestos e atitudes, transcendendo a aparência. Ela não está apenas no que é esteticamente agradável, mas também no que transmite autenticidade, harmonia e significado.

Já a autenticidade, elemento fundamental do que é belo, é a qualidade diretamente relacionada à fidelidade à essência de algo que é, às suas emoções e aos seus valores. Tem muito a ver com a intenção de ser verdadeiro e com o desapego aos padrões impostos, às expectativas externas, à tendência atual e à impulsiva necessidade de copiar. Funciona para objetos, atitudes e pessoas: consideramos belo aquilo que é verdadeiro, agradável e, de certa forma, diferente.

Pai abraça o filho pequeno deitado em sua cama © Clara e Matheus Fotógrafos de Casamentos

E por que desejamos o belo tão ardentemente?


O belo exerce um fascínio profundo sobre nós porque ele transcende o material e se conecta a algo essencial em nossa natureza humana. Desde o início do nosso desenvolvimento como espécie, a beleza está associada a emoções positivas, como alegria, paz, inspiração e conforto. Isso ocorre porque, ao contemplarmos algo belo, sentimos uma conexão com a ordem, a harmonia e o propósito, características que buscamos incessantemente em nossas próprias vidas. Buscamos por beleza em todos os lugares através da decoração, do design, da música, da moda, do cuidado com a saúde, etc.

O belo reflete proporção, ordem e equilíbrio, elementos que instintivamente associamos ao que é bom e seguro. A beleza nos lembra que a vida pode ser harmoniosa, mesmo em meio ao caos. E mais subjetivamente, vemos beleza em atitudes como a bondade, a generosidade e o amor. Essa beleza menos objetiva reflete ideais e sentimentos nobres que nos fazem sentir que todo relacionamento humano vale a pena ser preservado. Desejamos o belo porque ele nos faz sentir.

Mulher sorri ao ser fotografada com seu vestido branco © Clara e Matheus Fotógrafos de Casamentos

E onde entra a atenção nessa história?


A necessidade de atenção é intrínseca ao ser humano porque ela está profundamente enraizada em nossa história evolutiva e em nossa psicologia. A atenção dos outros sempre representou sobrevivência e pertencimento. Ser visto, reconhecido e aceito por um grupo era - e continua sendo - crucial para garantir proteção, recursos e apoio.

Isso não significa que a necessidade de atenção é algo ruim. Pelo contrário, não há nada mais natural e comum a todos os seres humanos que a necessidade de ser visto e reconhecido. Foi assim que evoluímos como espécie e é assim que nós mantemos todo o mecanismo social no planeta funcionando.

Quando recebemos a atenção de alguém, recebemos também mensagens não verbais que se traduzem em sentimentos de pertencimento, validação emocional, conexão social, reconhecimento de conquistas e realização de um propósito. Atenção é a base da conexão humana. Quando alguém nos dá atenção genuína, sentimos que somos compreendidos, que temos um lugar no mundo.

No entanto, há uma dualidade. Quando a busca por atenção se torna exagerada, pode ser um reflexo de insegurança ou desconexão interna. E isso também pode transparecer uma mensagem negativa, nos afastando das pessoas e dos bons frutos que a atenção genuína poderia nos oferecer. O clamor pela atenção pode nos levar a priorizar aparências em detrimento da substância, além de uma grande fadiga emocional, já que passamos a medir nosso valor exclusivamente pelo que os outros percebem e pensam de nós. E essa é uma forma bastante instável de se viver, não acha?

Mãos dadas com o pôr do Sol ao fundo em Campos do Jordão © Clara e Matheus Fotógrafos de Casamentos

Por fim, por que o belo não clama por atenção?


As coisas realmente belas, como sugere a frase de Sean O'Connell, não clamam por atenção porque têm uma confiança natural em seu valor, independentemente de serem vistas ou apreciadas. Tem a ver com o conceito de autenticidade que mencionei lá no comecinho desse texto. Tem a ver com verdade, despretensão e, no caso das pessoas, uma profunda conexão com valores internos e pessoais. Os seres, gestos e objetos realmente belos não dependem da nossa interpretação subjetiva para serem considerados belos. Eles simplesmente são.

Esse é um conceito facilmente aplicado à realidade do nosso trabalho como fotógrafos de casais e casamentos. O papel da fotografia — e do próprio relacionamento — não é capturar ou proporcionar um espetáculo, mas viabilizar a celebração da essência e do sentimento. Um casal que prioriza conexão e verdade transcende a necessidade de atenção e beleza; ele deixa uma marca porque ressoa. E então torna-se, natural e despretensiosamente, belo.