13 de novembro de 2024
Escrito por Matheus Muniz
Eu sinto que como profissionais, nós fotógrafos não falamos o suficiente sobre um assunto muito importante: o momento em que uma foto se torna uma memória.
Um dos fotógrafos que acompanhamos e com quem mais aprendemos, o Sean Tucker, publicou um vídeo chamado "Quando fotos se tornam memórias" que me tocou muito. Esse já era um tema sobre o qual eu refletia profunda, mas indiretamente. E eu acho que esse é um tópico para o qual deveríamos dar muito mais importância.
Quando o assunto é fotografia de casamento, por exemplo, você vai encontrar infinitos artigos e publicações em redes sociais te dizendo com o que você deveria se preocupar na hora de contratar um fotógrafo: alinhamento com as tendências estéticas do momento, suas habilidades de direção para poses, criação de narrativa, seu estilo fotográfico e de edição, ciência de cores e composição, direção de arte. São inúmeros os aspectos técnicos pra se analisar em um fotógrafo pra determinar se aquele é o profissional certo pra fotografar um dia tão importante. E não me leve a mal, todos esses aspectos são realmente muito importantes. Mas ao meu ver, eles são secundários. Sim, secundários!
"Mas como assim? Eu não posso escolher meu fotógrafo com base nas tendências atuais?" É claro que pode! O que eu quero dizer é que, como profissionais especializados em fotografar pessoas e eventos importantes, nós exploramos pouco a ideia de que fotos um dia vão deixar de ser só uma imagem cool pra postar no Instagram e se tornarão entidades de uma importância muitíssimo maior em nossas vidas em um nível emocional profundo: memórias.
A real é que, independentemente de quão caro ou popular seja o profissional que você escolheu, o mais importante é avaliar se ele compreende a responsabilidade de preservar esses momentos para que você os aprecie daqui a uma ou duas décadas, não apenas ao receber a galeria. O tempo e todas as suas experiências de vida são os maiores agregadores de valor à uma fotografia. Esses dois fatores atribuem valor às suas memórias de uma forma que nenhuma pose, trend, enquadramento ou filtro pode atribuir.
Nossos cérebros não são confiáveis, e quanto mais o tempo passa, mais ele nos engana. Você precisa de evidências? Tente se lembrar do seu próprio rosto sem olhar pra uma foto ou um espelho. Agora tente o mesmo com o rosto dos seus pais, dos seus amigos. Temos a impressão - e às vezes convicção - de que os momentos mais felizes da nossa vida serão naturalmente preservados em nossa memória e jamais serão esquecidos, mas tudo o que vivemos está sujeito a ser esquecido um dia. Vai me dizer que você se lembra em nítidos detalhes de todos os momentos mais felizes que você viveu quando criança?
Se você pudesse materializar cada momento alegre, de superação e até mesmo de tristeza em uma foto nas suas mãos eu tenho certeza que você o faria. É aqui que as fotos nos salvam. Elas resgatam sentimentos através de imagens familiares.
Assim que uma pessoa recebe a sua galeria, as primeiras coisas que ela avalia nas fotos pra definir se o resultado atendeu ou não as expectativas (em relação a si mesma e em relação ao trabalho do fotógrafo) são indicadores de sucesso e tendências do momento das fotos, como mencionei: as poses, as roupas, os vincos nas roupas, as cores da decoração, os filtros da foto, as modas e os ideais, as posições das mãos, das pernas, dos sorrisos e dos copos na mesa. Essas são as prioridades naquele primeiro momento, porque tudo ainda está muito fresco no cérebro dessa pessoa e fácil de ser lembrado. Por isso detalhes triviais acabam se destacando.
Dali cinco anos ela pode voltar ali praquelas mesmas fotos, mas aquela pessoa será então uma pessoa diferente, e aqueles olhos terão visto outras pessoas, outros lugares. O mundo provavelmente terá mudado um pouquinho, trazendo novas tendências, muito diferentes daquelas de 5 anos atrás. Então ela vai olhar pra outros aspectos daquelas mesmas fotos, esses um pouco mais significativos: vai tentar se lembrar do que estava sentindo naquele momento, o que fez antes e o que fez depois da foto ser tirada.
E vinte anos depois? Após inúmeras outras experiências, outras infinitas coisas que seus olhos virão e seu cérebro vai sentir, ela vai poder olhar praquelas mesmíssimas fotos de uma nova maneira. Quais você diria que serão suas prioridades? Eu acredito que essa pessoa vai ter resgatada a memória das pessoas com quem ela estava, como ela se sentia e muito provavelmente um dos aspectos mais profundos que uma fotografia pode despertar em uma pessoa: lembrá-la das motivações que a levaram a estar naquele lugar, fazendo o que estava fazendo, com quem estava fazendo. O porquê de tudo. Através de uma reflexão profunda provocada por uma fotografia, agora aquela pessoa pode avaliar se todas as escolhas que ela fez até chegar ao momento presente valeram a pena. Ela pode, através de uma memória, atribuir valor à fotografia e também à sua própria trajetória como ser humano.
Entende? O propósito daquela fotografia se enriquece com o passar do tempo e com o acumular das suas experiências e novos pontos de vista que atribuem cada vez mais valor emocional às imagens. É quando - como uma árvore que cresce, se desenvolve e amadurece - aquela imagem deixa de ser uma foto pra, finalmente, se tornar uma memória. Irreproduzível.
E uma memória, em determinado ponto de nossas vidas, pode ser a última coisa que nos conecta a um lugar, um momento ou uma pessoa. Uma memória física, como uma fotografia impressa, é de valor inestimável quando nossos frágeis cérebros falham e ameaçam esquecer aquilo que realmente importa e que desejamos que fosse naturalmente inesquecível.
Uma fotografia é um ato de rebeldia contra a mais implacável das forças da natureza: o tempo.


