02 de dezembro de 2024

Escrito por Matheus Muniz


Instintivamente, a nossa memória se desenvolveu em dois tipos para guardar informações úteis quando a gente ainda vivia em cavernas. A primeira, a memória semântica se desenvolveu para registrar padrões sensoriais (cores, formas, sons, gostos, cheiros e texturas) e associá-los a experiências úteis ou ameaçadoras, como saber qual planta era venenosa, qual animal era perigoso e identificar um alimento com alto potencial nutritivo. Ela servia - e ainda serve - um propósito objetivo: criar uma biblioteca de informações para o nosso cérebro consultar.

Depois, nossos instintos também desenvolveram um segundo tipo de memória extremamente importante para nossa sobrevivência numa comunidade: a memória episódica. Esse tipo de memória também registra padrões sensoriais, mas associa a eles emoções e sentimentos, através da atuação das amígdalas no hipocampo, região do nosso cérebro responsável pela memória.


Não por acaso, a amígdala controla um conjunto de neurônios que atuam diretamente no cérebro e é uma região responsável por criar o “colorido emocional” ao processamento cognitivo. O mecanismo para a criação e armazenamento de memórias emocionais acontece na interação entre a amígdala e o hipocampo.


Isso significa que a memória episódica também se baseia em informações sensoriais, mas usa das emoções associadas a elas - como medo, paz, tristeza, euforia - para criar um reforço, como um marca-texto. Essa memória serve um propósito mais subjetivo: registrar como nós nos sentimos diante de determinadas situações, pessoas e eventos.

Assim, se a gente se sente triste ou ameaçado em uma determinada situação, nosso cérebro registra as formas, cores, cheiros e outras informações fundamentais para que toda vez que a gente encontre esses mesmos estímulos, esses dois tipos de memória sirvam para uma utilidade crucial: a nossa sobrevivência.

Rapaz chora ao fazer pedido de casamento em Campos do Jordão

Mas, o mais legal é que isso passou a funcionar da mesma forma para uma utilidade mais prazerosa: o nosso senso de propósito e satisfação. Assim, quando a gente se sente bem, felizes e emocionados, nosso cérebro registra quimicamente aquela situação na nossa memória de longo prazo, através da coleta e armazenamento das informações visuais, olfativas, auditivas e até de toque.

De acordo com Rafael Ruggiero, pesquisador na área de Neurociências, com foco em psiquiatria, e professor colaborador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, já é sabido que “temos tendência a manter memórias que têm um conteúdo emocional mais relevante muito mais facilmente e por muito mais tempo”.


É por isso que quando você se depara com um cheiro ou um gosto específico, por exemplo, você resgata lembranças que estão associadas a sentimentos. E é por esse mesmíssimo motivo que quando você vê uma foto de um momento gostoso no passado, você desbloqueia memórias e resgata sentimentos. Você faz isso por meio de um estímulo visual.

Vestido de noiva em fotografia borrada

Para resumir a ópera, a nossa memória se prende a informações sensoriais que coletamos ao longo da vida. E as emoções são como um marca-texto que diferencia memórias simples (desassociadas de emoção), como a tabuada do 5; de memórias significativas (super associadas a uma emoção), como o dia que você fez aquela viagem espetacular ou o dia em que foi pedida em casamento.

No dia do seu casamento, por exemplo, seus cinco sentidos coletam informações de forma muito mais intensa, e gravam todas essas informações na sua memória de longo prazo através da atuação das amígdalas. Isso faz com que essas memórias sejam gravadas de maneira muito mais profunda.

E quando falamos de fotografias, falamos de estímulos visuais que vão "pescar" no seu hipocampo formas, cores, rostos, gestos que seus olhos registraram naquele dia especial e trazer junto todas as emoções que você sentiu no dia. Maluco, né?

Por isso a gente insiste em dizer: uma foto não é feita só para postar na internet. É um estímulo visual muito valioso para resgatar emoções significativas através da exposição às formas, cores, rostos e lugares que você registrou com seus olhos ao viver aquele momento especial.

É científico. Sem as fotos, nossas memórias mais importantes se misturam com todas as informações que consumimos ao longo da vida e, com o tempo e sem auxílios visuais, elas se tornam somente borrões. Boas fotos nos ajudam a manter vivas e nítidas memórias que perderiam seus detalhes com o tempo.