21 de dezembro de 2024

Escrito por Matheus Muniz


Sempre que o assunto é tempo e psicologia o texto pode acabar se tornando complexo, mas eu vou buscar escrever de uma forma simples e que seja de fácil compreensão pra que possa enriquecer o seu dia.


Alan Watts tem uma espécie de sugestão: vamos fazer uma pausa pra um momento de silêncio. Não aquele silêncio sombrio, que os jogadores de futebol fazem quando uma pessoa famosa acabou de morrer, em sua honra; aquele silêncio que todo mundo abaixa a cabeça e fica pensando coisas sérias e palavras de fé. Isso não é silêncio de verdade.

O silêncio real é aquele no qual paramos de pensar, e usamos cada um dos nossos cinco sentidos pra experimentar o momento presente, sem palavras. Porque, afinal de contas, se eu falo o tempo todo, eu não consigo ouvir o que o outro tem a dizer. E se eu falo comigo o tempo todo dentro da minha cabeça, eu estou me ocupando pensando em palavras. E, assim, eu não consigo ouvir o que o mundo real tem a dizer.


PRA COMEÇO DE CONVERSA, o que é o mundo real?


Algumas pessoas acreditam que o mundo real é tudo que é material, físico, que dá pra tocar. Outras acreditam que o mundo real é espiritual ou mental. Mas ambas essas crenças são conceitos. E conceitos são ideias construídas com palavras. E o mundo real não é uma ideia, não são palavras. A realidade é a natureza das coisas (e não a interpretação que formamos sobre elas): as ondas sonoras, os cheiros, as cores, as temperaturas. É tudo aquilo que estimula os nossos cinco sentidos. E você vai descobrir que, ao entrar em contato com essa natureza sem palavras, ficando em silêncio em sua própria mente, todos os tipos de ilusões desaparecem. E hoje eu quero falar sobre três dessas ilusões que nos distraem diariamente, nos afastando do que é real.

Dramatic golden sunset over mountain silhouettes with misty atmosphere.

A primeira ilusão: o dinheiro.

O dinheiro nada mais é que uma medida. Nesse caso, uma medida de riqueza, de recursos. Da mesma forma que os centímetros são medidas de comprimento e os gramas são medidas de peso. Você poderia ter uma quantidade inimaginável de notas de dólar e certificados de ações em uma ilha deserta. Eles deixariam de ser recursos e seriam inúteis para você. O que você precisaria seria comida, abrigo e companhia. O dinheiro simplesmente representa riqueza assim como um menu representa o jantar. E ele só funciona dentro de um sistema de trocas em que todas as pessoas acreditam que ele tenha algum valor.

Só que nós estamos, e já nascemos, tão inseridos nessa ideia, que alguns de nós preferem ter dinheiro do que ter aquilo que ele representa. Se você é uma pessoa mentalmente saudável sabe que não dá pra dirigir cinco carros de uma vez, mesmo que sejam cinco Cadillac. Você não pode viver simultaneamente dentro de seis casas, ou comer doze banquetes de uma só vez. Há um limite pro que se pode consumir. Riqueza é ter um lugar pra morar, comida pra nutrir e pessoas queridas com quem compartilhar os dias. Por isso devemos romper com a ilusão, e buscar riqueza em vez de dinheiro. E só se preocupar com esse último na medida em que ele possa nos proporcionar paz.


A segunda ilusão: o ego.

Nós confundimos nossos corpos de carne e osso, com a ideia que temos de nós mesmos. Ou seja, nos preocupamos demais com uma concepção de nós chamada personalidade ou ego. E o ego é um rascunho extremamente grosseiro e limitado do que nós realmente somos. Quem você pensa que é depende em grande parte de quem as pessoas te disseram que você é. Mas você não é o que as pessoas falam.

Se você continuasse sozinho naquela mesma ilha deserta, você ainda seria alguém, com determinados defeitos e habilidades, mas, dessa vez, livre das opiniões alheias. Então, quem você é a partir do momento que já não está mais ao alcance do que as pessoas pensam sobre você?


Por fim: o tempo.

A maioria das pessoas hoje em dia diz: "eu não tenho tempo". É claro que você não tem, você está sempre com a cabeça em outro lugar. O presente é a única coisa que existe. Não existe passado, não existe futuro. A construção mental que temos do tempo é a nossa terceira e mais abstrata ilusão. Passado e futuro não existem, são meros nomes que damos a dois tipos de perspectivas sobre o presente: memórias (preservação do presente) e projeções (tentativa de previsão do presente), respectivamente.

O presente é como um ponto no tempo em que o futuro se transforma no passado. Mas não somos ensinados sobre isso e acabamos fazendo algo perigoso: nós imaginamos que somos resultados do passado, estamos sempre jogando a culpa pra trás, sem perceber que o passado é causado pelo presente, assim como o rastro de um navio flui para trás a partir da proa. E esse rastro não impulsiona o navio mais do que o rabo abana o cachorro.

Mas a gente vive dando desculpas: "minha mãe não se cuidou enquanto me carregava no útero". Então culpam a mãe: "como você pôde ser tão irresponsável com seus filhos?" E ela diz: "bem, foram meus pais que não me criaram direito". Assim todos nós passamos a culpa pro que veio antes. Mas a verdade é que o passado não nos afeta, já que ele não existe. E adivinha? Nem o futuro. Tudo começa aqui e agora, o tempo todo. Percebeu? Começou de novo. Portanto o presente é a única coisa real, livre de opinião. Assim desatamos o nó do tempo.

A criação é constante, é presente. E você está fazendo isso exatamente agora ao ler, ao agir, ao viver, mas você precisa admitir que você é a criação disfarçada de ser humano. Um dia um homem descobriu isso e o crucificaram. E esse fato da criação constante é algo muito estranho para nós ocidentais entendermos, porque estamos tão alienados à natureza que, quando dizemos que algo não presta, dizemos que não tem futuro. Mas você, que é tão especial, tem?

Eu prefiro ter um presente a ter um futuro. Porque, se não tivermos um presente, é inútil fazer planos e seremos incapazes de criar memórias que valham a pena serem lembradas. Se você continuar preso a algo que não seja o agora, quando esses planos se concretizarem, você não vai estar lá para aproveitá-los. Você vai estar novamente desperdiçando o (um) presente.

Vintage Zenit camera with brown leather strap lying on white bedding.

E o que diabos isso tem a ver com fotografia, cara?


Pelo menos aqui, entre Clara e Matheus, fotografias tem um elo muito íntimo com esses três aspectos ilusórios que nos influenciam hoje e influenciaram todos os seres humanos que já existiram. E pode acreditar, essas três ilusões são exatamente os três maiores obstáculos que surgem quando se aponta uma câmera pra alguém.

Em primeiro lugar, por mais que você entenda agora que o passado é algo que já não existe mais, a memória é a nossa única forma de lutar contra esse fato. Ela é uma forma de riqueza, que nada tem a ver com dinheiro. Em segundo lugar, o ego é o principal inimigo da autenticidade, da naturalidade, da verdade. Pois somente alguém que teme as opiniões dos outros finge ser o que não é. E por último, mas não menos importante, o tempo é a grande abstração que permeia a nossa existência enquanto seres racionais. E fazer uma foto é dominar o tempo, aprisionar ele num pedaço de papel e por um breve, mas valiosíssimo momento, nos iludir: "agora você é meu".


Tá. Agora o que eu faço com toda essa informação?

Compreenda essas três ilusões, livre-se delas sempre que possível. E entenda que o tão mistificado propósito da vida é viver, seja como for. Preferencialmente com calma. É algo tão óbvio e tão simples. E justamente por ser simples, todo mundo subestima essa ideia, a descarta, e vive correndo pra lá e pra cá em pânico como se fosse necessário cumprir com qualquer outro desígnio além de sermos humanos.